De Janaina Garcia na Folha de Londrina
Empurrão de segurança, cinegrafista da imprensa oficial se esforçando para intimidar equipes de reportagem, um secretário estadual revoltado com perguntas fora do protocolo de inauguração de uma obra e outro, fazendo uma espécie de ”escolta” ao governador puxando a roupa de um jornalista para encerrar as perguntas ao chefe – ironicamente, o chefe da Segurança Pública do Paraná, Luiz Fernando Delazari. Essas foram ontem algumas das cenas que, à tarde, marcaram a inauguração de uma parte do Hospital Dr Anísio Figueiredo (Hospital Zona Norte), com a presença do governador Roberto Requião (PMDB), que deixa o posto no dia 1º de abril, secretários e outros comissionados.
A reforma – assim como no Hospital Zona Sul (HZS), entregue no último dia 11 – foi anunciada por Requião em dezembro de 2005 e teve início no começo do ano seguinte, mas passou por uma série de atrasos e paralisações devido a atraso de pagamento por parte da primeira empreiteira, além de mudanças no projeto previsto.
Na inauguração de ontem, na qual foram anunciadas mudanças no ambulatório, pronto-socorro, centro cirúrgico e 65 leitos de internação – eram 46 leitos -, restou a chamada segunda fase da obra a ser entregue: prevista para julho, vai elevar o número de leitos para 130 e e disponibiizar setores de raio-x e farmácia, ainda não prontos.
Requião se irritou quando a reportagem da FOLHA o questionou sobre a solenidade para uma obra ainda não completamente finalizada – a qual não quis responder se foi ”acelerada” para que ele pudesse inaugurá-la. ”Está completamente entregue, é uma construção em duas fases e a segunda fará praticamente um novo hospital”, disse. E concluiu: ”É o fim do mundo a gente entregar um obra dessa aqui completa, o maior investimento hospitalar no mundo e ter que responder uma bobagem dessa natureza”, encerrou.
Já o secretário estadual de Obras, Julio César de Souza Araújo Filho, classificou a ”agilidade” na entrega – ele toma por base o prazo de julho próximo – da seguinte forma: ”Absolutamente que não foram aceleradas; as obras foram antecipadas porque a população de Londrina precisa delas”.
Outras duas tentativas de abordagem ao governador sobre o mesmo assunto, por dois repórteres de TV, foram reprimidas por terceiros: na primeira, o jornalista foi barrado por Delazari, que interveio com um ”chega de entrevista”, puxando o gorro da capa de chuva do profissional. Ao ver a câmera ligada, o secretário deu risada e saiu. ”Ninguém é obrigado a dar entrevista se não quer”, resmungou.
Na segunda tentativa, já na saída do hospital, outro repórter foi entrevistar o governador, sem sucesso. Foi recebido com um empurrão do segurança, que entrou calmamente no carro oficial e ainda ficou sem parte do microfone, puxada por Requião.
Após o episódio do puxão do secretário de Segurança, presenciado pela FOLHA, contudo, um cinegrafista da imprensa oficial começou a registrar as duas equipes: a do jornal e a da TV que entrevistara o governador. Após minutos de tentativa, o cinegrafista – sem identificação aparente – foi abordado pela reportagem e parou com as imagens.
Após a FOLHA entrar em contato com a Agência Estadual e com a Secretaria estadual de Comunicação e obter a reposta de que ‘’só segunda-feira” o secretário Benedito Pires poderia falar a respeito, ele próprio retornou a ligação. Pires disse desconhecer as tentativas de intimidação da imprensa, no evento, mas informou que analisaria o caso. ”Vou verificar, pois essa não é prática nossa, não costumamos fazer isso, nem agora e nem nunca”, garantiu.
Janaina Garcia
Reportagem Local